Quando ouvi Beth Marques cantar pela primeira vez, eu estava no Semente, quintal de sambistas chorões da Lapa. Naquele clima boêmio, por vezes barulhento, em meio à fumaça da embriaguez noturna, a voz dela soou bonita, elegante, fina. Algum tempo passou, sabe-se lá  quantos anos, quantas noites lapianas… E eis que surge a nossa cantora com seu primeiro e esperado disco. Há tempos encontrava com Beth e seu parceiro, o enorme violonista Zé Paulo Becker, e sempre perguntava sobre esse trabalho que foi feito de forma artesanal, que foi pensado, lapidado, esmerilhado como uma joia rara. A tranquilidade dos dois me intranquilizava: “Pô,está demorando muito”, pensava eu.  Que nada! O tempo de espera foi o tempo certo de maturação artística.

“Bordadeira” não apenas é um CD maravilhoso como resume, sem limitar, a vivência artística de Beth e a capacidade de absorver a música e os sentimentos que a cercam. E a delicadeza da cantora está em cada detalhe. Criada em um sítio em Miguel Pereira, onde viveu até os 16 anos, desenvolveu uma grande relação com a natureza e seus sons. E quem fazia isso melhor que Tom Jobim, uma de suas referências juntamente com Vinicius de Moraes, Elis Regina e Maria Bethânia, que ouvia no aparelho de som de seus pais?

E a menina começou a descobrir a cantora nas rodas de violão, nas noites, nos bares. Mas o entendimento de sua vocação e da inevitabilidade de abraçar seu ofício só veio anos depois, quando, de volta ao Rio, decidiu estudar canto lírico no Conservatório Brasileiro de Música e, mais tarde, cantos africanos e do norte da Índia,  na escola Vox Mundi.

Mas a relação com mundos musicais só se completaria com uma viagem particular às nossas próprias matrizes. E o paraíso era logo ali, na nova velha Lapa. E o Semente não foi apenas o local onde eu e outros felizardos conhecemos Beth. Mas, principalmente, o lugar onde ela passou a se conhecer melhor, a fazer amigos, que trouxeram outros amigos neste exercício carioca diário de agregar sensibilidades, regionalismos, perfumes. E muitos desses amigos, alguns dos mais talentosos músicos do universo, estão com ela neste bordado de melodias, letras e arranjos.

De cara ela chamou para perto o grande violonista de sete cordas, arranjador, produtor Luís  Filipe de Lima. Desse encontro começou um processo refinado de pesquisa a partir dos compositores que ela mais admirava. De Chico e Djavan, ela regravou “Tanta saudade” com uma levada deliciosamente salseada. Paulo César Pinheiro surge em dose dupla com “Amor ausente”, samba pinçado do disco de inéditas do compositor – em que se destaca também o emaranhado de violões de seis e sete, de Zé Paulo e Rogério Caetano, modernizando os contrapontos em terças dos antigos regionais –, e o clássico “Refém da solidão”, dele e Baden Powell.  Já Aldir Blanc, para não perder o costume, traz imagens fantásticas na parceria com Zé Paulo Becker “Há Miles que vem para bem”: “Tô em braile nos sites/ Luz de cego nas nights/ Ouço Miles no sprint que dá/ Ai, para sapecar a caneta/ com Miles passando de letra/ O samba-fusion no cool-mafuá”.

O baiano Roque Ferreira, apresentado à Beth por Luís Filipe, contribui com três músicas inéditas para este CD.  “Samba de rodá”, “Cunhatã” e “Rabo de galo”, as duas últimas com Zé Paulo, um colecionador de letristas de primeira linha para suas ótimas melodias.  “Cunhatã” tem o luxuoso arranjo de Leandro Braga, que dialoga com o acordeão de Kiko Horta.

Alguns dos momentos mais bonitos dos discos estão em dois achados de mestres eternos do nosso cancioneiro.  De Dorival Caymmi, ela traz à luz a linda “A mãe d’água e a menina”, com um preciso arranjo de sopros de Zé Paulo e a participação do afinado Coro Colorido, formado por alunos da Escola Parque, onde Beth dá aulas de música. Braguinha ressurge com “Mané Fogueteiro”, com participação do Trio Madeira Brasil.

– Essa faixa tem uma história engraçada. Eu queria muito gravar uma música do Guinga. Conversamos algumas vezes pelo telefone, e acabei conseguindo uma cópia de todos os seus discos com meu amigo Marcello Gonçalves, do Trio Madeira. Escutei muitas vezes. Quando ouvi “Mané Fogueteiro”, fiquei impressionada, achei linda e resolvi imediatamente que esta música tinha que estar no CD. Liguei pro Guinga, toda feliz pela minha escolha, e ele respondeu muito generoso: “Grave ela, sim, é muito bonita, mas essa música é a única que não é minha, é do Braguinha.” Fiquei muito sem graça com a minha ignorância, mas não teve jeito, gravei feliz e agradeço muito ao Guinga, pois a sua interpretação é de tamanhas beleza e sabedoria que, se eu não tivesse ouvido, certamente não teria gravado.

Outra turminha que participa do disco é a do Marecatu, que na faixa-título, “Bordadeira”, de Eduardo Lacerda, mostra o resultado do projeto generoso que a cantora faz na Favela da Maré. A faixa conta ainda com o “Escultor do Ar”, Carlos Malta, e seus pifes.

A única participação vocal do disco, além do coro das crianças, é de Cláudio Jorge, autor da inspirada “Novos tempos” , que tem uma releitura calcada no suingue do piano de Itamar Assiére.

Quando Zé Paulo, coprodutor do trabalho com Luís Filipe e Beth, convidou-me para fazer um texto de apresentação do disco para a imprensa, me senti muito honrado, mas um pouco desconfortável por ter, eu mesmo, uma parceria nossa no disco, “Veneno que cura”. Mas, pensando melhor, percebi que, diante de tudo o que ouvi e do que já foi dito aqui, esse é apenas um pequeno detalhe.

Falemos de e, principalmente, ouçamos a nossa doce Beth Marques.

João Pimentel.

Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2011.